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26º Domingo do Tempo Comum, Ano C

O Rico e o Lázaro


A Liturgia da Palavra deste 26º Domingo Comum – C, vem também falar-nos dos Bens do Mundo, mas desta vez como um perigo que pode alienar os Bens dos Reino. Pobreza e riqueza são tão antigas como o mundo, e sempre constituíram problemas, cujas soluções estão sujeitas a diversas interpretações.


A riqueza coincide muitas vezes com a exploração do homem pelo homem, o que pode muito bem implicar com os problemas da justiça e da caridade, e assim pôr em risco de alienação os Bens do Reino. Na Bíblia aparece a expressão de “ai de vós, os ricos” em contraste com esta outra “bem-aventurados os pobres”, em que a pobreza se torna uma espécie de zona privilegiada para a experiência religiosa.


A 1ª leitura, do livro do profeta Amós, é uma corajosa denúncia do comportamento do povo que, vivendo alguns anos na paz e prosperidade, se entregou a uma vida dissoluta e longe de seu Deus, e não só.


- « Ai daqueles que vivem tranquilos em Sião e dos que se sentem seguros no monte de Samaria”. (1ª Leitura).

Também os pobres e abandonados, foram deixados a si mesmos. Amós chama ainda a atenção do povo para a insignificância e curta duração de semelhante vida, pelo que é bom estarmos sempre em acto de louvor ao Senhor, como proclama o Salmo Responsorial :

- “Ó minha alma, louva o Senhor”.


Na 2ª Leitura, S. Paulo escreve a Timóteo, seu representante junto da comunidade cristã de Éfeso, lembrando-lhe que um homem de fé não é, ou pelo menos pode não ser, aquele que sabe muitas coisas acerca de Deus, como por exemplo, um teólogo, mas sim o que vive na fidelidade ao seu Baptismo.


- “Conserva as normas da fé sem mancha e acima de toda a censura, até a aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo.(...) A Ele pertencem a honra e o poder eterno”.(2ª Leitura).

Com efeito, crer não é tão somente aceitar um credo ou ideologia, mas sim empenhar-se em Jesus Cristo e pôr-se a caminho. O Evangelho é de S. Lucas e, falando do rico avarento e do pobre Lázaro, faz-nos ver que o Senhor não deixará sem castigo o rico avarento, não tanto pela riqueza em si, mas pelo desprezo dado ao pobre que à porta mendiga o pão necessário para matar a fome.


- «Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino e todos os dias tinha esplêndidas festas. Jazia ao seu portão, coberto de chagas, um pobre chamado Lázaro. (Evangelho).

A presença de um profeta no meio do povo, faria com que os homens se modificassem, como implorou o rico. A avareza, o luxo e o supérfluo de alguns, e não apenas a riqueza, continuam a opor-se à miséria, à nudez, à falta de habitação, à fome e à falta de acesso à cultura de uma grande maioria da humanidade.


A parábola do rico e do pobre Lázaro está porventura considerada então como a aceitação fatalista de uma desordem constituída, na qual os ricos se tornam sempre mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e em que o rico pode oprimir o pobre ? Será a religião uma espécie de ópio que entorpece e mantém quietos os pobres ?


Não é evangélico esse modo de ler e interpretar a parábola, mas sim uma caricatura do Evangelho. O Evangelho é uma denúncia profética de qualquer ordem injusta, e é a revelação das causas profundas da injustiça. O pobre pode ser também um rico em potêncial, e lutar não pela justiça, mas para tomar o lugar dos patrões. O Evangelho é um apelo à conversão radical para todos, pobres e ricos, conversão a ser feita a todo o tempo.


A parábola mostra como a perspectiva do futuro tem influência sobre o dia de hoje e como a relação do homem com o homem inside na sua vida definitiva na presença de Deus. O Evangelho é uma força dinâmica de transformação “contínua”. A aventura do amor, inaugurada por Cristo e prosseguida depois dele, convidando o homem a consentir activamente na lei da liberdade, causou, de facto, uma mudança progressiva nas relações dos homens.


Não é, porém, um manifesto revolucionário nem um programa de reforma em matéria social. É algo maior e mais essencial. O Evangelho não nos ensina nada sobre revolução. Tentar construir uma teologia da revolução a partir do Evangelho é iludir-se e não captar o essencial.


No plano dos objectivos e dos meios, os cristãos e os não cristãos, devem apelar para os recursos da razão humana, científica e moral; uns e outros devem procurar as soluções eficazes, mesmo que os comportamentos concretos possam divergir. Mas os cristãos, conquistados pela aventura do amor e só na medida em que aceitam vivê-la como Cristo e em seu seguimento, estarão mais atentos em fazer com que ela não degenere em novas opressões e em novo legalismo. É este o facto que pesa sobre todos nós, que devemos proceder de maneira idêntica, para vivermos segundo o plano da História da Salvação.



Diz o Catecismo da Igreja Católica:


2443. – Deus abençoa os que correm em ajuda dos pobres e reprova os que deles se afastam : «Dá a quem te pede; não voltes as costas a quem pretende pedir-te compaixão»(Mt.5,42). «Recebestes gratuitamente; pois dai também gratuitamente» (Mt.10,8). É pelo que tiverem feito pelos pobres, que Jesus reconhecerá os seus eleitos. Quando «a Boa Nova é anunciada aos pobres»(Mt.11,5), é sinal de que Cristo está presente.


2444. - «O amor da Igreja pelos pobres...faz parte da sua constante tradição»(CA 57). Esse amor inspira-se no Evangelho das Bem-Aventuranças, na pobreza de Jesus e na sua atenção aos pobres. O amor dos pobres é mesmo um dos motivos do dever de trabalhar : para «poder fazer o bem, socorrendo os necessitados» (Ef.4,28). E não se estende somente à pobreza material, mas também às numerosas formas de pobreza cultural e religiosa.



John Nascimento

* Este texto possuiu grafia do Português de Portugal.

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